Recebemos mais uma contribuição deliciosa sobre o Acre, para O Brasil Com S. Elizabeth Brose, doutora em literatura, autora e premiada pesquisadora, nos enviou esse belo texto. Aproveitem!

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Bandas e fanfarras

Elizabeth Brose

A noite é quente. Mais de 30 graus. Suor no rosto. Alarido. Barulhos de todo tipo: uma mulher grita a delícia que são os seus salgadinhos. Uma pequena multidão enfileira-se para comprar e saciar o desejo de comer aquilo ali, que é uma mistura de cheiro, vozes de crianças correndo e restos de sons de instrumentos musicais sendo experimentados, afinados, ainda uma vez antes do desfile.

Ainda uma vez antes do desfile, as moças puxam com os dedos o lugar certo da saia, a justeza da bota impecável, branca até quase o joelho. Os rapazes carregando tambores passam correndo por nós, aflição de última hora. E, por fim, passam por nós, transeuntes, os grandes bailarinos e trapezistas do asfalto que roubarão as próximas cenas com suas acrobacias.

Figurinos, trabalho de costureiras até altas horas. Medir pessoas, medir tecidos, cortar, alinhavar. Experimentar tantas vezes até que, no justo, costuram-se em definitivo o veludo, o forro, as dobras das saias, tecido sobre tecido marcado a ferro, para que rodem com sucesso, ampliando o tamanho do movimento dos quadris. Cores combinam umas com as outras. Fios de linha são cortados para que nada disso, desse trabalho suado, seja visto. O figurino aparece perfeito, passado e limpo. Às dúzias. São muitos os integrantes a serem vistos e admirados.

Do alto chegam ao nosso rosto umas luzes fortes, lâmpadas que transformam aquele momento em uma grande noite de verão eterno. A noite do concurso de bandas e fanfarras em Rio Branco. O Acre está ali com puro gostinho bom de tapioca e coco ralado. Café, biscoitos Miragina. Como esquecer?

A população encosta-se à margem da mureta que a separa dos grupos. São muitos. E representam suas escolas, comunidades, cidades. Famílias, amigos, conhecidos e estranhos. Todos por ali. Muitas equipes de escolas de cidades como Rio Branco, Brasileia, Assis Brasil e Plácido de Castro.

Começou.

Dos bastidores, do aquecimento em que se aglomeravam, saem enfileiradas moças com uniformes – botas, saias e camisetas – em movimentos sincronizados de braços. As bandeiras parecem voar, todas juntas, como pássaros naquele movimento triangular pelo céu. Vemos às vezes essas aves. Pois, imitando essa trajetória migratória, as moças empunham seus estandartes. A primeira, a líder, dá o ritmo a ser seguido. Girando à esquerda e, depois, girando à direita, a fragilidade delas transforma-se em força muscular quase imbatível na arte de sustentar bandeiras dançantes.

Atrás delas, já anunciados pelo som e por um destaque, com harmonia nos passos, os músicos se aproximam em um cadenciado marchar.

Ouvem-se então tambores, pratos e tímpanos. No decorrer da noite, os instrumentos inauguram no asfalto melodias que diferem e se misturam à voz de mulher corajosa no fritar quente dos seus salgados.

Em noite de tropicais malabarismos, ouço a palavra “Glockenspiel” e carrilhão. Só então me lembro das influências externas daquilo que parece ter sido, desde sempre, nascido no centro do nosso país. A festividade.

As bandas, os músicos, as moças, os uniformes, os trompetes…

E balizas.

Rapazes elásticos e moças nascidas para voar vão à frente, abrem a apresentação com seu corpos leves que saltam de um lado para outro. Desafiam com pernas e braços a gravidade que os lança no chão mais uma vez. As acrobacias marcam espaços entre música e bandeiras. Coreografias. Jovens exibem suas habilidades no manejo do bastão, enquanto usam a força e a destreza para nos mostrar os limites do equilíbrio e do ritmo. Esse espetáculo de habilidade e audácia é a parte da fanfarra que mais poderíamos aproximar e distanciar da palavra fanfarrão. Fanfarrão é aquele que nos conta bravatas, que nos diz e tenta mostrar uma coragem que não tem. A baliza é o momento em que a bravura e a valentia são mostradas, por aqueles que as têm.

Assim vi.

Sei também do rigor das avaliações e dos que se consideram injustiçados. Não acredito na comparação em si, na transformação desses momentos de preparação e desenvoltura em objetos comparáveis. Sei que são avaliados pelo repertório, harmonia, melodia, ritmo, articulação, afinação, dificuldade, técnica, uniformidade, marcha, alinhamento, regularidades entre as colunas, conjunto, garbo, comunicação, postura. Poderíamos, contudo, avaliar somente o impacto feliz nas crianças que atravessaram a noite rindo e vendo o que eles querem ser um dia: parte daquele grupo de trabalho.

(Por Mayra Fonseca. Ilustra o texto a obra de Lucie Schreiner.)